Uma crônica de duas cidades *
Renato Henrique Dias
Enquanto as retrospectivas de 2008, na imprensa local e nacional, reativavam a mancha das imagens sobre as tristes e vergonhosas lembranças de corrupção envolvendo figuras políticas e públicas de Juiz de Fora, reveladas no decorrer do ano passado, pelo menos dois livros, lançados no final do ano, reafirmavam a dignidade histórica e cultural da cidade. "Imprensa, Cultura e Imaginário Urbano", escrito pela jornalista Christina Musse, e "Imaginária Sacra em Juiz de Fora", dos historiadores e pesquisadores André Vieira Colombo, Raphael João Hallack Fabrino e Valtencir Almeida Passos, foram - e são - capazes de resgatar, em suas páginas, momentos e exemplos de amor à cidade. Desde a narrativa apaixonante de Christina Musse, num trabalho recheado de depoimentos reveladores sobre os anos 60 e 70 na cidade, até as surpreendentes apresentações de um tesouro artístico espalhado por diversos pontos de Juiz de Fora, no documento dos três historiadores e pesquisadores de arte, tudo é contagiante, tudo é absolutamente mágico.
Quem viveu as décadas de 60 e 70 em Juiz de Fora vai se encontrar nas páginas do "Imaginário Urbano". O livro nos remete a um tempo de reação intelectual e cultural, diante das adversidades da ditadura então imposta ao país, através de um golpe militar que, ironicamente, teve seu primeiro gesto concreto em Juiz de Fora, com o envio de tropas para o Rio de Janeiro. Através da imprensa alternativa, do teatro, das artes plásticas, da música e da universidade, fica evidente a vocação desta cidade para aquilo que podemos chamar de "resistência". Partindo de um trabalho acadêmico - tese de doutorado - Christina Musse enxerta, em mais de 300 páginas, toda uma concepção de época, marcada pela participação efetiva de uma geração ávida por liberdade. Exatamente em um momento em que a palavra "liberdade" era apenas um exercício de pensamento.
Os depoimentos de dezenas de personagens do período são provas do lirismo ostensivo e, principalmente, gratificante, de uma cidade que não se acovardou. Na verdade, o "Imaginário Urbano" de Christina Musse é mais do que o ato de tornar público um trabalho universitário. A atuação da imprensa, a ação dos intelectuais, a força dos artistas e acadêmicos, tudo isto está lá, através de depoimentos ricos em detalhes, forjados na experiência e visão de quem viveu aqueles momentos com a intensidade, a fé e a coragem que os tempos exigiam. O livro é um documento tão importante - e as próximas gerações vão constatar isso - quanto o hoje clássico "Álbum do Município de Juiz de Fora", do jornalista Albino Esteves, publicado em 1915. Esse álbum praticamente disseca, de forma documental, toda a História da cidade até aquele período, transformando-se em uma das mais importantes fontes de informação sobre a cidade.
A mesma importância pode ser dada, por outro lado, ao livro "Imaginária Sacra em Juiz de Fora", também consequência de pesquisa acadêmica. E o que André, Raphael e Valtencir, os pesquisadores, revelam, é um sacrário de preciosidades artísticas, expostas em diversas imagens sacras espalhadas por museus, igrejas e coleções particulares, exaltando o rico acervo de importância incalculável, até então "escondida" do conhecimento da grande maioria dos juizforanos. São peças sacras, quase todas dos séculos 17 e 18, que, ao serem transportadas para a realidade de hoje, enriquecem o patrimônio cultural, histórico e social da cidade, além de servir como base para outros estudos sobre o passado de Juiz de Fora. O livro tem uma belíssima apresentação gráfica, um texto simples e direto, sem ser didático, mas elucidativo. As reproduções das imagens convidam a uma reflexão tão profunda quanto uma viagem ao passado de toda essa região, e incentiva o leitor, também, a procurar conhecer cada uma dessas peças, agora ao alcance de seus olhos.
Assim, é só ir até Torreões - quem não tem carro, pode ir de ônibus, a passagem custa apenas R$ 1,55 - e conhecer, por exemplo, as peças que a Igreja de São Francisco de Paula, lá na localidade, guarda entre suas paredes. São imagens do século 18, pertencentes ao acervo da Arquidiocese de Juiz de Fora, para serem vistas e admiradas. E se Torreões é longe, o Centro da cidade oferece outras alternativas, como o Seminário Santo Antônio, no alto da Avenida Rio Branco, onde estão também outras preciosidades das relíquias sacras de Juiz de Fora, também do século 18. Um pouco mais no Centro, na Capela Senhor dos Passos, no complexo da Santa Casa de Misericórdia, estão também outras peças devocionais importantes do século 19. Tudo isso está lá, no livro "Imaginária Sacra". O livro enumera, mostra, cataloga, informa, disseca, enfim, dá todas as coordenadas sobre este rico acervo de imagens sacras em Juiz de Fora.
E isso é gratificante para quem entende que, muito além de suas devoções ou crenças, existe todo um processo de beleza religiosa e importância histórica em cada uma dessas imagens. Por tudo isso, esses dois livros trouxeram para os juizforanos uma espécie de brisa e conforto em um ano - 2008 - que deixou tristes lembranças administrativas e políticas na mente e nos corações daqueles que amam essa cidade. Assim, os livros de Christina Musse e de André Colombo, Raphael Fabrino e Valtencir Passos, com suas revelações sobre a História e o patrimônio de Juiz de Fora, podem até não ter tido esse objetivo, mas conseguiram sustentar, em cada uma de suas páginas, o orgulho de ser juizforano, de morar, trabalhar ou estudar aqui, e a certeza de que, apesar de tudo, esta cidade ainda vai cumprir seu ideal.
*O nome desse artigo tem como base o título do livro "Um Conto de Duas Cidades", de Charles Dickens, escrito em 1859.

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